TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO: FURO N’ÁGUApor Luiz Ferreira Vaz Volta à baila a transposição do São Francisco para o semi-árido nordestino, apresentada como a redenção para o problema das secas. Diz a história que, desde os tempos de D. Pedro II, o governo já despendia verbas vultuosas para a eliminação da seca. Talvez nada tenha mais impacto na consciência coletiva do que a falta d’água ou, para usar um jargão mais atual, a sede zero. A foto de uma vaca esquálida, morta e arrepiada pela seca, é a imagem que, inconscientemente, projetamos para os nossos irmãos nordestinos. Mas será que o problema é mesmo a falta d’água? O planeta Terra e suas características, entre as quais a disponibilidade de água superficial e subterrânea, é governado pelas condições geológicas reinantes numa determinada região ou época. Ao longo dos seus 4,5 bilhões de anos, a Terra sofreu inúmeras transformações, muitas delas extremamente radicais, com o gelo, a seca e as invasões marinhas dominando alternadamente, por exemplo. Discute-se agora o aquecimento global, atribuído à ação antrópica, mas, alguns geólogos acreditam que estamos no limiar de uma alteração na temperatura da Terra, que ocorre por ciclos separados por milhares ou milhões de anos. No semi-árido nordestino, provavelmente nos últimos dois ou três milhões de anos, o clima é seco, com chuva escassas e irregulares. Sob o prisma do tempo geológico, são poucas, ou mesmo insignificantes as chances dessas condições serem alteradas pelo Homem. Porém, não foi por falta de investimento que a falta d’água no semi árido deixou de ser resolvida segundo alguns estudos. Muito dinheiro, dizem que o equivalente a dois planos Marshal, que recuperou a Europa pós 2ª guerra, foi gasto em açudes, canais, poços, caminhões pipa, adutoras e dezenas de outras medidas, inclusive frentes de trabalho e distribuição de cestas básicas. Não adiantou muito. Um bom exemplo é o Açude Poço da Cruz, uma barragem enorme em Ibimirim, no sertão pernambucano, quase seca, com quilômetros de canais concretados, secos, rachados e abandonados. O projeto, aparentemente da década de 50, foi mal feito e nunca existiu água suficiente para enchê-la, puro desperdício. Ë certo que uma parte, talvez até a maior parte desse dinheiro, foi desviada para os bolsos de alguns. Há ainda a considerar que a transposição, conforme exigido pela Bahia e Sergipe, que “perderão” a água transposta, torna necessária a derivação de águas da Bacia do Tocantins para a do São Francisco, um projeto megalomaníaco, digno de uma intervenção divina, como aquelas feitas por Deus ao criar a Terra. Apesar do desvio histórico (de verbas, bem entendido), nunca haverá dinheiro que chegue, nem mesmo o da transposição, porque o problema do semi-árido não é água, é terra. Excetuando a Zona da Mata, uma faixa de 10 a 50km que margeia o Atlântico, da Bahia à Paraíba, onde chove e solo é espesso, na maior parte do semi árido não existe solo, somente uma camada de fragmentos de rocha em matriz de solo, com 20 a 40 cm de espessura. A razão é geológica, falta chuva e predomina o chamado processo de intemperismo físico, que não produz solos, apenas fragmentos da rocha subjacente. Nessas áreas, mesmo com água, adubos, sementes, tecnologia e o diabo a quatro, nada será produzido porque não há solo, não há matriz para as raízes, exceto dos arbustos da caatinga, adaptados há milênios. A não ser que se queira plantar em calhas hidropônicas e estabelecer um sistema de transporte aéreo para vender alface para o mundo todo. Há exceções. Ao longo dos rios e córregos, ocorrem várzeas constituída por aluviões areno-argilosos, agricultáveis e úmidos, porém sua largura é limitada, alguns metros ou no máximo, nos rios maiores, algumas dezenas. A segunda exceção é muito mais ampla. São as bacias sedimentares, em particular os arenitos, como os das bacias sedimentares de Tucano/atobá, do Parnaíba e outras, menores. Essas rochas mais brandas sofrem maior intemperismo, mesmo com a escassez de água e seus solos são mais espessos. Porém, ainda ocorrem outros solos espessos produzidos pelos coluvionamentos que se estendem por quilômetros diante dos tabuleiros de arenitos, como na região de Itaparica, PE. Entretanto, somadas essas extensões talvez não ultrapassem algumas centenas de quilômetros quadrados, quase nada, quando comparado à área total do semi-árido. Há também as áreas irrigadas ao longo do rio São Francisco onde se produz uva, manga, côco e muitas outras frutas e produtos, até vinho. Ali as barragens baixas mantiveram o rio contido à calha e preservaram as várzeas extensas, às vezes quilométricas, onde o sol do ano inteiro, os sistemas de irrigação e a tecnologia são capazes de produzir tudo que se quiser. Mas, são áreas limitadas, a maioria, já ocupadas e produzindo. O projeto da transposição contempla somente a perenização dos rios situados ao Norte do divisor da Bacia do rio São Francisco, portanto em direção à Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Ao longo desses rios receptores há pouca ou nenhuma terra para irrigar. As várzeas de aluviões são limitadas e os arenitos e seu solos também. Trata-se, portanto, de um projeto de redistribuição de renda entre as empreiteiras que forem encarregadas da construção, já que não haverá resultado econômico para remunerar o investimento feito. Do ponto de vista social haverá benefícios, sem dúvida, mas, a maioria, aparentes. A água perene é um benefício inestimável, principalmente para garantir o bem estar e o crescimento populacional. Entretanto, se o bem estar é essencial, aumentar a população, sem terra agricultável suficiente, é irresponsabilidade. Se uma dada região não produz o suficiente para alimentar sua população, a solução é importar comida, mas, para isso há que haver outro tipo de produção, de produtos minerais ou industriais. Ambos são insuficientes no semi-árido e a maior oferta de água somente aumentará a miséria. A população do semi-árido tem que ser ajustada aos seus recursos e isso somente será conseguido através da educação, nunca da transposição. Além disso, mesmo que a população seja beneficiada de alguma forma, o acesso à água, não melhorará seu padrão de vida econômico. Não será possível aumentar a população dos bovinos, aliás já escassos, pois sem terra só cresce a vegetação tipo caatinga, que não será beneficiada pela água, continuando a predominar os caprinos, que comem de tudo. A terra para plantar continuará a mesma, limitada as margens dos cursos d´água. Entretanto, há que reconhecer que uma melhora na oferta de água deve ser feita. Por um custo milhares de vezes menor do que a transposição (imagens de satélite e mapas existentes bastam), as áreas com rochas do tipo arenito e seus solos podem ser delimitadas. Essas rochas tem o hábito de acumularem água subterrânea. Uma dessas, no Sul do Brasil, o aquífero Guarani do arenito Botucatu, acumula mais água do que todos os rios do mundo. Nessas áreas poderiam ser construídos poços tubulares profundos (conhecidos como semi artesianos) e abastecidas cidades, vilas e projetos de irrigação aproveitando o sol do ano inteiro, coisa nordestina, que pouca gente tem. Nas várzeas dos rios intermitentes do semi-árido poderiam ser construídas barragens em seqüência, de pequena altura, aproveitando as rochas existentes. Essas barragens reservariam água apenas no próprio leito dos rios, mas, inundariam os aluviões arenosos das várzeas marginais e dariam maior perenidade às cacimbas ali existentes. Reservatórios simples, tipo caixas d’água, poderiam ser construídos em todas ou na maiorias das casas, nas cidades seriam enterrados nas praças, recolhendo e acumulando águas das chuvas para uso no período seco, como já vem sendo feito em algumas zonas rurais do semi árido, com sucesso. Medidas como estas deveriam ser precedidas de um estudo de zoneamento do semi-árido, identificando seus solos e materiais de superfície. Esse estudos ainda deveriam definir qual a vazão aproveitável de cada bacia do semi-árido, o que, pasmem, nunca foi feito. Somente com esse estudo é possível saber onde existem solos para irrigar, quais bacias efetivamente precisam de água adicional e quais os métodos mais eficazes para obtê-la. Em síntese, a transposição do São Francisco, como concebida e estudada até o momento é, meramente, um projeto político, que desconhece os critérios geológicos que governam a questão. Será como o abandono da busca da autosuficiência em petróleo do Geisel, o Paulipetro do Maluf e o gasoduto Brasil-Bolívia de FHC, todos projetos políticos fracassados por não considerarem as condições geológicas que determinam o comportamento dessas intervenções. Em breve, essa lista de fracassos será acrescida da transposição do Lula. O ônus político será do Lula e do PT, é claro, mas há problemas piores. O dinheiro será desperdiçado, a renda da população do semi–árido não será melhorada e a conta (leia-se, o empobrecimento) será de todos nós.
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