Brasil Mineração, o Brasil Que Poucos Conhecem

 

por Elpídio Reis

 julho 2003

 

Apesar de gerar mais de 2% da economia brasileira, nossa industria de bens primários de mineração é uma ilustre desconhecida. Um levantamento diário na imprensa não especializada do setor mineral mostra raríssimas citações sobre o tema mineração. Na  Gazeta Mercantil, observa-se que a cada seis dias, aparecem, em média, três citações sobre mineração, em outras palavras, um dia sim outro não.  E mesmo assim 80% das menções se referem a CVRD (ferro, alumínio e ultimamente cobre) e 10% ao  Grupo Votorantin (calcário). Então fica a pergunta : - E as nossas 82 minas de grande porte e 402 minas de médio porte? – Não produzem ou nada fazem que mereçam artigos na mídia?

 

O nosso problema de divulgação é histórico. O minerador sempre esteve na defensiva, quando não, acuado. Com fama de fazedor de buracos, poluidor e destruidor de florestas o minerador apresenta um comportamento retraído e sem divulgação. A mineração moderna é na grande maioria das vezes benigna. No entanto, com as pequenas  empresas de mineração normalmente descapitalizadas, não possuem condições de arcar com a mitigação a contento do impacto ambiental.

 

A industria de mineração para crescer necessita de duas fontes bem distintas de recursos.

Crédito: Depósitos minerais uma vez descobertos são desenvolvidos de acordo com plano de aproveitamento econômico/ambiental/social aprovado pelo DNPM. Os recursos para implantação da mina e planta de beneficiamento e infraestrutura são oriundos de capital próprio da empresa, participação acionária de terceiros ou financiamento de médio ou longo prazo, provindos do BNDES, bancos regionais ou internacionais. A este empréstimo são exigidas garantias reais ou caso o projeto atenda critérios específicos, a garantia pode ser o próprio direito minerário, o depósito mineral e as instalações. Em situações especiais o banco pode optar em deter uma pequena participação acionária.

Capital de Risco: No Canadá, líder em investimento de risco, as empresas levantam recursos para exploração mineral na Bolsa de Valores aonde o investidor ou fundos de investimento têm incentivos fiscais, o “flow through shares”.  No Brasil, não existe capital de risco para exploração e pesquisa oriundos da Bolsa de Valores. Os motivos são vários, desde ausência de poupança de risco, cultural e principalmente pela falta de incentivos e regulamentação que protejam o investidor e o minerador.  No Brasil o capital de risco disponível para descobertas minerais não deve chegar a US$120M por ano, e é oriundo de re-investimento de empresas locais ou captação estrangeira. 

 

Em 1997, antes do escândalo da Bre-X, cerca de US$4.5B de risco eram destinados a exploração mineral mundial. Hoje, existem somente cerca de US$2.5B disponíveis globalmente para a exploração mineral. Deste valor pelo menos US$500M não tem destino definido. Isto significa que empresas captam estes recursos nas bolsas de Toronto, Vancouver, Londres e Sydney, levando para os países que apresentam melhores oportunidades geológicas e minerais.  Este é um capital essencialmente de risco que sofre pouca influência da estabilidade econômica ou social do país a ser explorado. Este capital pode migrar tanto para o Brasil, como (e migra!) para a África, Rússia, China ou até mesmo Colômbia. Este é o capital que precisamos e estamos perdendo. O motivo?

 

1)   Nos livros didáticos de depósitos minerais e literatura especializada, as minas australianas, canadenses, americanas e mesmo da Índia, África e Oceania, são descritas em detalhe. O Brasil é mencionado com, dados antigos de Morro Velho, (que já foi uma antiga mina inglesa), geologia do Quadrilátero Ferrífero (estudada em detalhe pelo US Geological Survey na década de 50) e pouco do ferro de Carajás (pela importância e reconhecida magnitude). Isto apesar de termos depósitos e minas de classe mundial de cobre e ouro (Salobo), ouro (Morro do Ouro), zinco (Vazante), nióbio (CBMM), potássio (Taquari-Vassouras), fosfato (Araxá), bauxita (Trombetas), titânio (Rio Grande), níquel (Puma Onça), vermiculita (Catalão), granitos (Espírito Santo) etc.

2) Nosso conhecimento geológico é razoável mas não divulgado na língua inglesa. Nos últimos 3 anos a CPRM resgatou em parte este atraso lançando produtos de geologia e geofísica com dados geo-referenciados. Agora finalmente temos  dados geológicos em varias escalas, acessíveis pela internet global em língua internacional, e podemos competir com superioridade sobre países com geologia menos atrativa ou sem tradição mineira.

3)  Os dados  geológicos e exploração obtidos por empresas utilizando capital de risco  e eventualmente entregues ao governo, sofrem de falta de documentação, armazenamento e divulgação. Os relatórios fornecidos pelas empresas de exploração ao DNPM são invariavelmente de baixa qualidade e omitem dados críticos que podem servir de base de trabalho para o próximo explorador. Os dados geofísicos são disponibilizados em parte mas são afetados pela lentidão da disponibilização e divulgação. Os furos de sonda de prospectos abandonados ou abortados, são descartados no lixo dos rejeitos de sondagem. Estes caros dados que custam em média US$100/m, são tratados, por exemplo na Austrália, como patrimônio nacional, sendo proibido seu descarte. Todo furo de sondagem feito na Austrália é guardado pela empresa que explora ou arquivado em bibliotecas de testemunhos do governo espalhadas pelo país.

4) Nossas minas em operação não são obrigadas, ao contrario de outros países,  a fornecer dados e resultados anuais publicamente ou em detalhe ao DNPM.  Nossos órgãos e agências públicas em geral não divulgam nossos poucos dados geológicos e operacionais em congressos internacionais. As empresas no Brasil, não são obrigadas nem tem interesse em divulgar dados, pois adquirem vantagem competitiva e se beneficiam do desconhecimento mas, prejudicam o desenvolvimento da industria mineral.  Não  esqueçamos que bens minerais não são renováveis, são de propriedade da nação,  que apenas autoriza a extração por determinada empresa por tempo determinado. 

 

Conclusão:

 

Sem capital de risco não teremos geólogos de exploração ativos nem novas descobertas ou desenvolvimento das existentes. Até a década de 80, o Canadá não investia um centavo em exploração para diamante. Chuck Fipke, o geólogo que praticamente sozinho pesquisou diamante ao longo de 8 anos por mais de 1000km com esparsos recursos financeiros, descobriu em setembro de 1991 o primeiro kimberlito mineralizado de diamante perto do ártico canadense. Hoje, 13 anos depois, com duas grandes minas em produção e dezenas de novos kimberlitos mineralizados descobertos, o Canadá lidera em captação de capital de risco, com mais de US$1B de investimento.

A mineração brasileira e nossas riquezas minerais, com exceção do ferro, são desconhecidas no Brasil e no exterior. Sem divulgação continuaremos no atual estagio de lento progresso. Se a divulgarmos oficialmente e profissionalmente, atrairemos capital de risco imediato para exploração e por conseqüência teremos mais descobertas minerais e mais investimentos em novas minas. Geraremos empregos e criaremos e estimularemos o crescimento de uma industria de serviços moderna incluindo sondagem, geofísica, geoquímica, software,  etc. Isto acarretará expansão da  participação da industria mineral no PIB de 2% para 5% podendo chegar a 10%, gerando riqueza e poupança interna que financiará novas descobertas e o processo de transformação industrial de nossos bens primários com contribuição positiva para a balança de comércio exterior do país.

 

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