JUNIOR COMPANIES
por Jad Salomão Neto Junho/2003
As Junior Companies são empresas de pequeno porte do setor da mineração, que ficaram muito conhecidas principalmente no mercado acionário canadense. Em vista de seu pequeno porte, são empresas normalmente muito ágeis, com rápido poder decisório, o que lhes favorece a vantagem de encontrar, deter e desenvolver parcialmente inúmeros projetos potenciais, eliminando, com pequeno capital, as primeiras etapas de alto risco. Com isto, muito contribuíram e vêm contribuindo com o setor e, além de propiciarem centenas de empregos, são sempre um bom alvo para as major companies ou grandes investidores. No Brasil, a falta de tradição, incentivos governamentais, capitalizações quase impossíveis, etc, estagnaram os pequenos mineradores do país, ou melhor dizendo, evitou a exploração mineral de pequena escala. Deu lugar aos aventureiros ou garimpeiros que são hoje dezenas de vezes mais conhecidos do que os geólogos, não só pelo povo mas principalmente pelos políticos à caça de votos. É muito comum perguntarem aos geólogos com projetos profissionalmente conduzidos: “Como vai o seu garimpo?”. Vimos há pouco uma eleição presidencial onde, tanto nas propagandas eleitorais quanto nos debates, sequer ouvimos a palavra mineração. Não podemos deixar que isto continue, num país com tanto potencial como o Brasil. Pretendemos com este artigo mostrar aos leitores de forma bem simples e explicativa, principalmente àqueles que têm bons projetos potenciais, não importa o bem mineral, que existem alternativas de capitalização no exterior. A sistemática de implantação e acesso às possibilidades de recursos e capitalização não são um “bicho de sete cabeças” como pensa a maioria. Ao contrário, o investimento necessário, desde que se tenha um bom portfólio, não passa de bons contatos no exterior, capital para passagens aéreas e uma boa apresentação do projeto num power point. Como verão adiante, embora nos dias de hoje a capitalização esteja mais difícil em função de atuações irresponsáveis de uns poucos bandidos do setor, é bem mais fácil no exterior do que no Brasil. Os anos de 1994 a 1997 se destacaram como uma época áurea para as Junior Companies, as quais representavam também um grande alvo das instituições canadenses e investidores capitalistas que patrocinavam financeiramente as etapas de maior risco, com objetivos especulativos. Em outras palavras, com base em bons projetos, essas empresas se tornavam públicas, listadas nas bolsas de valores de Toronto ou Vancouver, passando a captar recursos através da venda de ações no mercado. As instituições são empresas que controlam normalmente entre 500 milhões a 10 bilhões de dólares dos Bill Gates da vida e têm sempre 0,5 a 1% desse dinheiro, que significam vários milhões de dólares, para investimentos de alto risco que, em contrapartida, podem significar também altíssimos lucros. Na época, o valor das ações de uma júnior era equivalente ao potencial dos projetos e não ao real patrimônio da empresa, ou seja, a cada boa interseção de sondagem ou etapa vencida, uma ação da empresa passava rapidamente por exemplo de C$0,20 para C$0,50, C$1,00 e assim por diante, até uma eventual reserva mineral quando estas ações poderiam valer C$10, C$20, ou C$100, dependendo do tamanho da jazida. As contas são simples. Imaginem por exemplo que uma instituição capitalize sua empresa com 1 milhão de dólares através da aquisição de 5 milhões de ações a um valor de 20 centavos de dólar. Com este dinheiro você investe no seu projeto, encontra bons resultados e sua ação passa então a valer 1 dólar. Aquela instituição, talvez com poucos meses, já tem 5 milhões de dólares, ou seja 500% de lucro. Imaginem então se os resultados são tão bons que esta empresa definiu um depósito que elevou suas ações a 10 dólares. A instituição que aplicou 1 milhão de dólares e tem 5 milhões de ações passa então a ter um capital de 50 milhões de dólares ou 5.000%. Por outro lado, se você não achou nada, a instituição ou o investidor perde no máximo o investimento, que para ele pouco significa, pois era dinheiro de risco total. Perder tudo entretanto, é muito raro pois ele ainda tem os 5 milhões de ações de sua empresa que sempre valem alguma coisa ou podem com o tempo se reabilitarem com base em outros projetos. O interessante é que sua empresa é capitalizada mas não deve nada, a não ser a responsabilidade de aplicar bem os recursos. Foi uma capitalização feita através da venda de ações de sua empresa e não por empréstimo. Por outro lado, a empresa é pública, ou seja, pode se capitalizar junto a várias instituições ou investidores ao mesmo tempo, assim como também está livre para concretizar joint ventures com major companies, o que é bom para os acionistas, pois isto também pode vir a ser motivo para elevar o valor das ações pois revela que o seu projeto tem bom potencial. Embora seja este o escopo do negócio, é também importante alguns outros fatores, como a credibilidade da empresa e de seus diretores no mercado. São inúmeras as responsabilidades que têm que serem assumidas junto às bolsas, aos acionistas e ao mercado. As Junior Companies, assim como qualquer empresa pública, estão sob constante vigília, com auditorias internacionais rígidas quanto ao uso do dinheiro, compromissos de divulgação de todos os resultados, sejam eles bons ou ruins, relatórios de consultorias independentes, etc. Deslizes podem custar muito caro. Uma mudança drástica no mercado ocorreu a partir de 1997, com o conhecido caso Bre-X. Foi uma fraude bilionária principalmente no mercado canadense, quando esta empresa, que também era uma Junior Company, “salgava” (fraudou) os testemunhos de sondagem e fabricou um dos maiores depósitos do mundo, que já estava com mais de 100 milhões de onças de ouro cubado. Para se ter uma idéia, suas ações saíram de C$0,50 para C$250,00 , quando fizeram então o split, ou seja, 1 ação de 250 dólares canadenses passou a ser 250 ações de 1 dólar. A partir daí essas ações já estavam a quase 30 dólares cada, quando então a fraude foi confirmada. Com isto, e ainda associado a outros vários fatores como por exemplo a queda do preço do ouro que chegou a US$250/onça, o mercado despencou. Praticamente pararam os investimentos nas Junior Companies e as regras mudaram. As ações passaram a valer o equivalente ao patrimônio real das empresas ou até bem menos pois a oferta passou a ser maior do que a procura, assim como também passou a ser muito rígidas as auditorias e diligências anteriores aos investimentos. Hoje entretanto, com a volta do preço do ouro aos patamares normais, em torno de US$350/oz, o mercado vem aos poucos reabilitando e dando um pouco mais de esperanças às pequenas empresas do setor. Durante esse período de congelamento do mercado, grande parte das pequenas empresa fecharam as portas por falta de alternativas. Com este início de reaquecimento e com poucas companhias júnior no mercado, vejo que é hora de preparar os caminhos nesse sentido, principalmente porque o Brasil é sempre um bom alvo de investimentos. Em vista das mudanças do mercado entretanto, uma decisão de constituição de uma Junior Company, deve passar primeiro por um filtro quanto as atuais exigências, assim como procurar os caminhos que possam eventualmente levar ao sucesso. O primeiro passo é certamente um bom portfólio. Pelo menos um projeto deverá estar em estágio de pesquisa mais avançada, com sondagens e resultados bem consistentes e potencial claro para depósito de médio a grande porte, para despertar o interesse do investidor. Isto não era ponto vital nas épocas áureas e deve-se levar em conta a possibilidade de retorno daqueles tempos pois o mercado está meio estagnado em vista da dificuldade de se encontrar projetos avançados. O segundo passo é a equipe de diretores. É ponto vital que reconheçam a credibilidade e competência do pessoal envolvido. Qualquer ponto de dúvida quanto a este item vai significar insucesso. Segue-se o(s) parceiro(s) estrangeiro(s). É fundamental que entendam profundamente do mercado acionário e que tenha pelo menos uma certa vivência com o setor da mineração para que possam representar a empresa. Por outro lado, um advogado estrangeiro na equipe é fundamental pois todas as exigências legais têm que ser cumpridas, e não são poucas. Com estes pontos organizados, resta a constituição das empresas. A empresa brasileira será a detentora dos direitos minerários e será uma subsidiária da empresa estrangeira. Não é fácil registrar uma empresa na bolsa de valores. Existem entretanto, dezenas de empresas listadas mas que estão de portas fechadas ou adormecidas e principalmente sem portfólio. A negociação com uma dessas empresas é a melhor alternativa pois a vendem em troca de algumas ações da sua empresa que irá assumi-la (prática conhecida como “take over”). A maioria destes passos são sempre providenciados pelo sócio estrangeiro e faz parte do negócio. Constituída a empresa e definida a quantidade e distribuição das ações e regras existentes, o próximo passo refere-se à capitalização propriamente dita, que é a procura de investidores. A captação de recursos pode ser feita de diversas formas. Em reuniões diretas com os representantes ou até mesmo com os presidentes das instituições financeiras, com investidores particulares muito capitalizados ou mesmo com empresas de mineração, convencendo-os de que seus projetos são potenciais e que podem lucrar com a capitalização de sua empresa em troca de ações de baixo valor. Por outro lado, existem dezenas de grupos que promovem sua empresa e buscam a capitalização em troca de um montante pré determinado de ações para transações bem sucedidas. Essa modalidade de capitalização é muito conhecida como “Private Placement”. Tem ainda a alternativa de buscar parceiros (Joint Ventures) para projetos específicos, podendo ser junto às major companies ou mesmo junto a Junior Companies capitalizadas. Ao contrário do mercado brasileiro, o mercado no exterior, principalmente o canadense, está muito acostumado com as transações relativas ao setor da mineração. Chega a ser uma tradição. Aqui no Brasil não temos sequer onde tentar e é por isto que achamos tudo complicado. Pode não ser tão fácil levar sua empresa para o exterior mas também não é difícil ao ponto de nem pensarmos no assunto. Tenho visto muitos geólogos brasileiros com bons portfólios mas que se limitam a oferecer seus projetos às empresas que estão radicalizadas no país, as quais normalmente estão abarrotadas de projetos e ofertas e não compensam o suficiente no caso de uma negociação. Este artigo tem portanto, a finalidade de esclarecer sobre este outro lado, de forma a induzir os profissionais brasileiros a começarem a pensar no assunto. Nesse sentido, o melhor conselho é sugerir aos geólogos ou todos aqueles ligados ao setor, que façam todo esforço possível para participar do PDAC – Prospectors & Developers Association of Canada, que se dá em Toronto e é hoje o maior congresso de mineração do mundo, com participação de 6 a 8 mil representantes das empresas de mineração de pequeno, médio e grande porte hoje conhecidas, assim como das instituições financeiras e todas as empresas ligadas de alguma forma com o setor, como geofísica, equipamentos, sondagem etc. O Brasil tem sido sempre bem representado pelo DNPM, CPRM, CVRD, DE BEERS do Brasil, VERENA e alguns geólogos que já descobriram a sua importância como por exemplo o colega Nelson Bueno de Manaus que é um grande batalhador. O evento representa um local de aprendizagem, divulgação e negócios, que acontece todo ano no início de Março e tem uma duração de 5 dias, sempre com abertura num domingo. Se você tem um bom portfólio, é lá que você vai encontrar um parceiro e os caminhos começam a ficar mais claros, se você não tem, é lá que vai começar a ver o verdadeiro mundo da mineração.
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